Imagem capa -  por Anne Ulson Fotografia
Como acontece!



Trabalho de parto normal dura em média de doze a catorze horas.

O tempo de duração normalmente é mais curto em mulheres que já tiveram filhos.

O parto é evento natural e fisiológico, resultado do término de uma gravidez. Dizemos que uma mulher está em "trabalho de parto" (TP) quando os fenômenos que conduzirão a chegada de um bebê se desencadeiam. O seu diagnóstico é dado quando surgem as contrações uterinas, obedecendo intervalos e intensidades desejáveis capazes de promover a dilatação progressiva do colo uterino (cervix), porção inferior estreitada do útero, espécie de válvula constituída de fibras musculares entrelaçadas que veda a cavidade uterina no fundo da vagina.

O trabalho de parto é um processo dinâmico, dependente das contrações uterinas, e que, de acordo com a velocidade da dilatação cervical, é dividido em duas fases.

A primeira é a fase latente, na qual o colo vai sendo dilatado mais lentamente (fase inicial do trabalho). Nesta etapa, que pode durar de 12 a 20 horas, as contrações são irregulares, menos intensas, e muitas vezes, apenas perceptíveis. Nessas horas, muito comumente, a gestante refere apenas "que a barriga fica dura, mas que não está sentindo dor". A progressão ainda é lenta e a dilatação do colo é inferior a 1 centímetro por hora. O colo vai progressivamente perdendo a rigidez e ficando amolecido. Cada contração promove trações sobre as fibras musculares do colo e pressionam para baixo a bolsa das águas e o bebê, na sua grande maioria, pelo "polo cefálico" (cabeça). Sob ação destas duas forças, o colo se encurta e dilata cada vez mais e o bebê tende a descer e ultrapassa-lo, migrando pelo canal vaginal e bacia óssea até se exteriorizar no "nosso mundo de fora".

É importante que se reconheça o chamado falso trabalho de parto - "alarme falso" - e se diferencie da Fase Latente. No "alarme falso", as contrações são irregulares, as "dores" são de fraca intensidade, podem ocorrer em salvas, sem um ritmo adequado, não tem padrão progressivo - muitas vezes cessam com o simples repouso - e não se observa dilatação do colo. É a maior causa de "vai-e-vem" as maternidades das gestantes de "primeira viagem". Para sua adequada identificação, deveremos repetir o exame obstétrico e, sobretudo o "toque vaginal" após o intervalo de duas horas de observação.

A partir dos quatro centímetros de dilatação, diagnosticada pelo toque vaginal, entra a chamada fase ativa, ou final do trabalho de parto verdadeiro, quando a parturiente apresenta em média, 3 a 5 contrações com duração entre 20 a 60 segundos, em 10 minutos de observação e que promovem a dilatação progressiva do colo uterino ("dilatação cervical") em torno de mais de um centímetro por hora, com ou sem rotura da "bolsa das águas". Através do toque vaginal, avalia-se a descida da apresentação fetal (parte do feto que se oferece ao canal do parto) tomando por base certos pontos de referencia ósseos da bacia materna. A cabeça do bebê, nas condições ideais, "encaixa", "fixa", e desce pela bacia óssea. O trabalho vai se intensificando a medida que avança o tempo.

Em condições normais, alternando contrações e momentos de pausa cada vez mais curtos, a "fase ativa" evolui entre seis e doze horas, a partir de quando o colo alcança 10 cm de dilatação até o momento do expulsivo, ou seja, a saída da criança para fora do corpo materno. Em condições de normalidade, o "período expulsivo" não deve ultrapassar dos 30 minutos a uma hora e deverão ser oferecidas todas as condições e posições para fazer os esforços que auxiliem o nascimento do bebê. Os puxos sobrevém instintivamente, coincidindo com as boas contrações que se repetem a cada um ou dois minutos, intercaladas por fases de relaxamento, quando a parturiente deverá estar liberta de estímulos que a tirem do seu "estado especial de consciência".

Na fase ativa acontecem as contrações mais doloridas e prolongadas quando comparadas com as primeiras horas do trabalho de parto. Podemos amenizar estes momentos lançando mão de exercícios respiratórios, reasseguramento com técnicas de relaxamento, banhos quentes de banheira ou chuveiro, mas o que em geral se observa é que nestes momentos a mulher tem uma atitude como se estivesse ?plena", em "estado de graça" diante da suprema realização da maternidade e antegozando a primeira vez que vai acolher e abraçar seu filho.

O último ato é representado pelo "delivramento" ou "dequitação?, nome dado a expulsão da placenta e que deve ocorrer entre cinco a trinta minutos após o nascimento.

Durante todo o trabalho de parto é indispensável o controle das condições de vitalidade do bebê através da ausculta intermitente dos seus batimentos cardíacos, durante um a dois minutos e repetida a cada 15 a 30 minutos, conforme seja gestante de alto ou baixo risco.

A ausculta deverá ser feita nos intervalos, durante e logo após as contrações. A regularidade, ritmo e características sonoras nos informam sobre o bem-estar fetal. Se necessário, poderá ser feita a monitorização cardíaca fetal contínua associada a um gráfico das contrações uterinas (cardiotocografia fetal). A ausculta deverá ser realizada cada vez com maior frequência - a cada cinco ou 10 minutos - à medida que o trabalho de parto avança. O acompanhamento destas informações será repetido de acordo com a evolução, individualizada a cada caso.

Durante a evolução do TP, a gestante - principal protagonista - deverá ter amplo suporte físico e emocional da equipe obstétrica, respeitando sua privacidade e sempre que possível, com liberdade de posição e mobilidade. A posição vertical, sobretudo enquanto caminha, conta com a ajuda da gravidade e intensifica a eficiência das contrações e o esforço da mãe, acelerando o procedimento e encurtando significativamente o tempo do trabalho de parto.

Ao contrário da posição horizontal, no parto de cócoras o processo é mais rápido, bem mais confortável e a mulher não sofre compressão de importantes vasos sanguíneos, o que poderia levar ao sofrimento do feto. Outra vantagem é que a área da pelve é aumentada em até 40% e a elasticidade do períneo é menos comprometida (mantendo sua integridade), o que facilita a passagem do bebê; já na posição horizontal, o feto é obrigado como que "subir" durante a expulsão para vencer a forma da curva pélvica, e exige da mãe um esforço muito maior para o mesmo fim. Todos estes fatores favorecedores, inclusive com o uso eventual de analgesia, acompanhados por uma equipe competente e envolvida, propicia uma evolução bem mais serena, com redução do tempo do trabalho de parto e com grande tolerância aos desconfortos, inclusive nos momentos nos quais as "ondas contráteis" se apresentem com maior sensibilidade dolorosa. Nas mulheres que já deram a luz anteriormente (multíparas), ocorre redução do tempo do trabalho de parto comparado com aquelas que nunca pariram (nulíparas), quando toda a dinâmica ocorre entre 8 a 9 horas ao invés de uma média de 12 a 14 horas.

O parto é um momento crítico, sem controle, irreversível, e o obstetra, quando "tudo está evoluindo bem", tem obrigação de permitir à parturiente participar com liberdade e lucidez da experiência do nascimento. Este momento pertence a ela e à sua cria, muito mais do que ao médico e sua equipe.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a parturiente deve ser bem orientada para adotar a posição e movimentação que mais lhe dê conforto e a presença de acompanhante de sua escolha é altamente benéfica, seja pelo aconchego solidário da simples presença ou por colaborar com o uso de técnicas de relaxamento ou massagens.

ARTIGO DE ESPECIALISTA - ATUALIZADO EM 02/08/2016

Dr. Cláudio Basbaum
GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA - CRM 11665/SP